Uma crítica: a cobertura da imprensa no Brasil ao prêmio Nobel de Química

A Real Academia Sueca de Ciências divulgou na última quarta feira os agraciados com o Prêmio Nobel de Química em 2013. O prêmio foi dado conjuntamente a três cientistas (Karplus, Levitt e Washel), pelo “desenvolvimento de modelos de computadores usados para compreender e prever os processos químicos”.

Eu, que estava em trânsito para uma consulta médica, estava acompanhando tudo a partir da conta oficial dos prêmios Nobel no Twitter. Mas, como sou assinante também da conta no Twitter de vários jornais brasileiros, fui vendo também a reação de cada órgão da imprensa nacional em relação ao prêmio.

O resultado: de moderado a decepcionante, salvo uma exceção.

Primeiro, vamos às manchetes.

UOL Ciência: Químicos que criaram programas que espelham a vida real ganham Nobel

G1: Trio leva Nobel de Química de 2013 por modelos de sistemas complexos

Reuters Brasil: Três norte-americanos conquistam o Nobel de química

Carta Capital: Trio que simulou a vida real leva o Nobel de Química

O Globo: Pioneiros das pesquisas complexas com computador ganham Nobel de Química de 2013

Estado de São Paulo: Karplus, Levitt e Warshel vencem Nobel de Química

Folha de S. Paulo: Trio leva Nobel por criar programas de computador que preveem reações químicas

 

Primeira pergunta que eu faço ao ler essas manchetes: alguém ganha, vence ou recebe o prêmio Nobel? Levando-se em conta a descrição do próprio website dos prêmios Nobel, há um processo de indicação, avaliação e seleção daqueles que receberão o prêmio. Na minha opinião o mais correto seria dizer ‘Nobel de Química agracia três pesquisadores’ ou ‘Três pesquisadores são selecionados para receber o Prêmio Nobel de Química em 2013′. Não é uma competição no sentido em que o próprio candidato não se indica ou se inscreve para o prêmio.

Agora vamos a uma descrição mais detalhada das matérias dos jornais e websites.

Vacilaram: Carta Capital, Reuters e UOL. Primeiro: ‘programas que simulam a vida real‘ (Carta Capital e UOL Ciência) é uma tentativa muito ruim de se tentar traduzir para o leitor brasileiro a essência do trabalho dos três pesquisadores. Se eu não fosse um professor de Química Orgânica, poderia achar que  os três ganharam um prêmio por terem criado os jogos SimCity ou The Sims. A Reuters, por outro lado, errou a nacionalidade dos pesquisadores. Eles trabalham nos EUA, mas nasceram na Áustria (Karplus), Inglaterra (Levitt) e Israel (Washel).

Na média: G1, Folha e Estadão. A matéria dos três é, em resumo, uma tradução do press anouncement do site dos Prêmios Nobel.

Bem acima da média: dou um bom ponto positivo para a matéria d’O Globo. Pesou muito a favor o fato de que eles consultaram um pesquisador brasileiro da área, o Professor Jerson Lima e Silva, bioquímico e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem da UFRJ e diretor científico da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Ciência do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), o que colocou o conteúdo do texto bem além da simples tradução (abordagem escolhida pelo G1, Folha e Estadão), além de ajudar a compreender a importância do trabalho dos três pesquisadores para a Química.

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